Cobrança indevida: o que exigir e quando a devolução é em dobro
✓ Atualizado em 1 de outubro de 2026 · Revisão: Dr. Fabrício Santos Cruvinel, OAB 51.741
Uma cobrança que você não reconhece apareceu na fatura, ou o desconto saiu direto da conta. O que dá para exigir muda conforme você já tenha pagado ou não, e existem dois dobros diferentes na lei brasileira. Aqui está qual deles cabe no seu caso.
O que a lei chama de cobrança indevida
Indevida é a cobrança que não tem causa: o serviço não foi contratado, já foi cancelado, já foi pago, ou o valor não é o combinado.
O Código de Defesa do Consumidor não traz uma lista fechada dessas situações. Ele ataca o problema por dois lados, e é bom conhecer os dois, porque eles dão remédios diferentes: o art. 39 proíbe a prática abusiva de fornecer serviço sem pedido, e o art. 42 cuida do que acontece depois que o dinheiro saiu do seu bolso e precisa voltar.
Ou seja, uma coisa é a cobrança aparecer na fatura. Outra é você ter pago.
A diferença muda o que se pede.
É por isso que ela abre esta página, antes de qualquer artigo.
Serviço que você não pediu não se paga
Aqui a lei é mais dura do que a maioria imagina.
O inciso III do art. 39 proíbe ao fornecedor "enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou fornecer qualquer serviço". E o parágrafo único do mesmo artigo resolve a consequência: os serviços prestados e os produtos entregues nessa situação "equiparam-se às amostras grátis, inexistindo obrigação de pagamento".
Ou seja, o pacote que apareceu sozinho na conta de telefone não vira dívida sua por ter sido usado. Ele vira amostra grátis por força de lei, e a cobrança cai por inteiro.
Isso vale para o serviço de valor agregado da operadora, para o seguro embutido na fatura do cartão e para a assinatura que ninguém lembra de ter aceitado. O que precisa ficar claro no pedido é que não houve solicitação prévia, e é aí que entram o contrato, os protocolos e o histórico de faturas, porque é neles que a ausência do pedido fica visível.

A devolução em dobro do Código de Defesa do Consumidor
Essa é a regra que a maioria das pessoas conhece, e ela tem um pressuposto que costuma passar batido.
O parágrafo único do art. 42 é curto e diz tudo.
O consumidor cobrado em quantia indevida "tem direito à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de engano justificável".
O pressuposto está na própria frase: o dobro é do que você pagou em excesso, ou seja, ele depende de dinheiro que já saiu. Cobrança que apareceu na fatura e foi contestada antes do pagamento não gera dobro por esse artigo, gera o cancelamento e, se for o caso, indenização por outro fundamento.
A exceção do engano justificável existe, e quem precisa demonstrá-la é a empresa. Não basta alegar erro de sistema: o engano tem que ser justificável, e essa palavra faz trabalho pesado na discussão, porque separa a falha pontual da cobrança que se repetiu por meses sem ninguém corrigir.
Má-fé deixou de ser exigida
Esse ponto virou em 2020, e boa parte do conteúdo que circula ainda repete a regra antiga.
Durante anos as empresas se defendiam dizendo que só devolveriam em dobro se o consumidor provasse má-fé, o que é prova quase impossível de produzir. A Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça encerrou a discussão no EAREsp 600.663/RS: a repetição em dobro "revela-se cabível quando a cobrança indevida consubstanciar conduta contrária à boa-fé objetiva", independentemente do elemento volitivo do fornecedor.
O entendimento foi reafirmado no EAREsp 1.501.756/SC, relator o Ministro Herman Benjamin, julgado pela Corte Especial em 21/02/2024, com a mesma redação.
Lembrando que houve modulação. A tese se aplica aos indébitos de contratos de consumo que não envolvam serviço público, e apenas às cobranças feitas depois de 30/03/2021, que é a data da publicação do acórdão. Para pagamento anterior a essa data, a análise volta a ser caso a caso.
O dobro do Código Civil é outro, e exige processo
São dois dobros diferentes na lei brasileira, e trocá-los derruba o pedido.
O art. 940 do Código Civil obriga quem demandar por dívida já paga a pagar ao devedor o dobro do que cobrou. A palavra que decide ali é "demandar": esse dobro pressupõe cobrança judicial, e não a cobrança que chegou por carta, ligação ou fatura.
Some-se o limite fixado pelo Supremo Tribunal Federal na Súmula 159, que continua valendo: "Cobrança excessiva, mas de boa-fé, não dá lugar às sanções do art. 1.531 do Código Civil".
O artigo citado ali é o do Código de 1916, e corresponde ao atual art. 940.
| Qual dobro | O que ele exige | Onde está |
|---|---|---|
| Dobro do consumidor | você pagou o valor indevido | art. 42, parágrafo único, do CDC |
| Dobro do Código Civil | você foi processado por dívida já paga | art. 940 do Código Civil |
| Nenhum dos dois | a cobrança apareceu e foi cancelada antes do pagamento | cancelamento, e dano moral se houver desdobramento |
Resumindo: quem pagou pede pelo CDC, quem foi processado indevidamente pede pelo Código Civil, e quem só recebeu a cobrança pede o cancelamento.
Quanto tempo você tem para pedir de volta
Aqui há uma resposta firmada, e ela é mais generosa do que se imagina.
A Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça decidiu, no EAREsp 676.608/RS, relator o Ministro Og Fernandes, julgado em 21/10/2020, que a ação de repetição de indébito por cobrança indevida em relação contratual de consumo segue o prazo geral de dez anos do art. 205 do Código Civil, e não algum prazo especial mais curto.
O prazo curto ficou de fora.
O tribunal afastou expressamente os três anos do art. 206, § 3º, IV, que trata de enriquecimento sem causa e só se aplica de forma subsidiária.
Dez anos é bastante tempo.
Isso muda o cálculo de quem descobre hoje uma cobrança que vinha se repetindo desde 2019.
Se é isso que está acontecendo com você, mande sua situação pelo WhatsApp. A conversa inicial serve para entender o seu caso.
Falar com um advogado no WhatsAppCobrança indevida gera dano moral?
A resposta honesta é que depende, e a maioria dos casos não gera sozinha.
Cobrança indevida que ficou na fatura, foi contestada e cancelada costuma render devolução e nada mais. É pouco, mas resolve o problema que levou a pessoa a reclamar. O dano moral aparece quando ela sai do papel e alcança a sua vida: o nome vai para o cadastro de inadimplentes, o desconto compromete o benefício de quem vive dele, ou a cobrança se repete de modo constrangedor.
Existe ainda um filtro específico para a negativação, e ele derruba muito pedido antes mesmo da contestação da empresa. A Súmula 385 do Superior Tribunal de Justiça diz que "da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao cancelamento".
Na prática, quem já tinha outra negativação legítima na data ganha a baixa da anotação irregular e não a indenização, e isso se confere antes de pedir. O tema tem página própria em nome negativado indevidamente, e o critério geral está em dano moral: quando o transtorno vira indenização.
Cobrança indevida é crime?
A cobrança em si não é. O modo de cobrar pode ser.
O art. 71 do Código de Defesa do Consumidor tipifica como crime utilizar, na cobrança de dívidas, "de ameaça, coação, constrangimento físico ou moral, afirmações falsas incorretas ou enganosas ou de qualquer outro procedimento que exponha o consumidor, injustificadamente, a ridículo ou interfira com seu trabalho, descanso ou lazer", com pena de detenção de três meses a um ano e multa.
Dá pra ver o que o tipo alcança: a ligação para o chefe, o recado com o vizinho, a ameaça de providência que não existe. A cobrança errada e silenciosa na fatura não entra ali, e é bom saber disso antes de prometer boletim de ocorrência a quem procura o escritório.
Se a cobrança que você recebeu passou desse ponto, me manda a gravação ou o print pelo WhatsApp que eu digo se o caso comporta a via criminal.
Na experiência do escritório, o crime do art. 71 aparece pouco como pedido principal.
Ele aparece muito como reforço do dano moral, porque descreve a conduta que constrangeu.
Desconto que aparece na conta ou no benefício
Esse é o caso que mais chega, e ele tem uma agravante de tempo.
Quando a cobrança é débito automático em conta corrente, em conta salário ou em benefício do INSS, o dinheiro sai antes de qualquer discussão. Não existe fatura para contestar: existe saldo que diminuiu. Por isso o primeiro movimento é sempre o mesmo, e é na instituição que faz o desconto.
O que se pede ali é o bloqueio imediato de novos descontos e o extrato com a origem da rubrica, sempre com número de protocolo e data. Sem a origem da rubrica não dá para saber quem cobrou, e o pedido acaba sem réu certo, o que atrasa tudo em uma emenda à inicial que podia ter sido evitada com uma ligação.
O caso específico do consignado que ninguém contratou tem roteiro próprio em empréstimo consignado não contratado. Quando a cobrança vem da distribuidora de energia e ela desliga a luz para forçar o pagamento, as regras são outras e estão em corte de energia indevido.
Se você tem desconto saindo da conta e não sabe de onde veio, me manda o extrato pelo WhatsApp com a rubrica que aparece.
O que juntar antes de reclamar
O caso de cobrança indevida é caso de papel, e o papel se junta antes.
O conjunto que sustenta o pedido tem cinco itens: as faturas com as cobranças marcadas, o contrato ou a demonstração de que ele não existe, os protocolos de cancelamento e de reclamação com data e número, os comprovantes de pagamento do que saiu do seu bolso, e as conversas com o atendimento, prints incluídos.
Não ter tudo isso não fecha a porta. O art. 6º, VIII do Código de Defesa do Consumidor autoriza o juiz a inverter o ônus da prova quando a alegação for verossímil ou o consumidor for hipossuficiente, e é a empresa que tem o contrato, a gravação e o log do sistema.
O que a inversão não faz é substituir a data. Protocolo com número e horário é o que transforma "eu cancelei" em fato provado, e ele se pede na hora, não depois.
Vale a pena chamar um advogado
Dá pra resolver boa parte dessas cobranças sozinho, na plataforma pública de reclamação, e muita gente resolve. O caminho está em como registrar uma reclamação no consumidor.gov.br. Não resolvendo por lá, o passo seguinte é processar a empresa.
Só que o valor que volta depende de qual dobro se pede, de qual data se conta e de o pedido ter sido feito dentro dos dez anos. Quem já fez isso muitas vezes olha primeiro se houve pagamento, depois a data de cada débito, e só então decide entre o cancelamento, o dobro do CDC e o dobro do Código Civil.
São perguntas chatas, feitas antes de qualquer reclamação.
E é delas que sai o tamanho do pedido.
O que acontece com quem começa sozinho
O erro mais caro aqui é pedir pouco, e ele quase sempre vem da pressa.
Na experiência do escritório, o caso que mais aparece é o da pessoa que reclamou, conseguiu o cancelamento da cobrança e encerrou o assunto satisfeita, sem pedir de volta os trinta e seis meses que já tinha pagado sem perceber. A empresa cancela de bom grado, porque cancelar é o mais barato que ela pode fazer naquele momento.
Se você tem cobrança que não reconhece, manda as faturas pelo WhatsApp com os meses marcados. A conversa inicial serve pra entender o caso e dizer o que dá pra pedir de volta.
Guias úteis aqui no site
- Como processar uma empresa: por onde começar
- Reclamação no consumidor.gov.br: como registrar e o que ela vale
- Corte de energia indevido: como religar e quando cabe indenização
- Dano moral: quando o transtorno vira indenização
- Empréstimo consignado não contratado: contestar e bloquear
- Nome negativado indevidamente: como tirar e quando cabe indenização
- Gato de energia: multa, crime e como recorrer da cobrança
- Seguro prestamista: o que é, quem recebe e como pedir a devolução
- Venda casada: o que caracteriza e como pedir o dinheiro de volta
- Artigo 42 do CDC comentado: parágrafo único e Tema 929
Como o escritório atua em casos como o seu
- Análise dos seus documentos e da sua situação
- Ação no Juizado Especial — 100% digital, para todo o Brasil
- Você acompanha cada andamento pela Área do Cliente
A conversa inicial serve para entender o seu caso. Atendimento em todo o Brasil, seg–sex, 8h–20h.
Perguntas frequentes
O que é cobrança indevida segundo o CDC?
Cobraram um serviço que eu não contratei. Preciso pagar?
Como funciona a devolução em dobro do art. 42 do CDC?
Preciso provar má-fé da empresa para receber em dobro?
A partir de quando vale a regra da devolução em dobro sem má-fé?
Qual a diferença entre o dobro do CDC e o dobro do Código Civil?
Qual o prazo prescricional para pedir a devolução?
Cobrança indevida gera dano moral?
O que é a Súmula 385 do STJ e por que ela derruba pedidos?
Cobrança indevida é crime?
Estão descontando da minha conta e eu não sei de onde vem. O que faço?
Não tenho todos os documentos. Ainda dá para reclamar?
Consegui o cancelamento da cobrança. Acabou?
Este conteúdo ajudou?
Fontes e base legal
Ver a legislação, os julgados e os endereços consultados
Código de Defesa do Consumidor, arts. 6º, VIII, 39, III e parágrafo único, 42, caput e parágrafo único, e 71 (Planalto e Câmara dos Deputados, Legin).
Código Civil, arts. 205, 206, § 3º, IV, 940 e 941, no texto compilado do Planalto.
STJ, Corte Especial, EAREsp 600.663/RS: tese da repetição em dobro pela boa-fé objetiva, com modulação para cobranças posteriores a 30/03/2021, restrita a contratos de consumo que não envolvam serviço público.
STJ, Corte Especial, EAREsp 676.608/RS, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 21/10/2020, DJe 30/03/2021: prescrição decenal do art. 205 do Código Civil, afastado o art. 206, § 3º, IV. Os dois acórdãos são da mesma sessão e foram publicados em 30/03/2021, que é a data usada na modulação.
STJ, Corte Especial, EAREsp 1.501.756/SC, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 21/02/2024, unânime, reafirmando a tese (Informativo 803, de 12/03/2024).
Fontes: acórdão do EAREsp 676.608 na Revista Eletrônica do STJ, notícia institucional do STJ de 29/10/2020, e o Informativo 803.
STJ, Súmula 385 (Arquivo Cidadão do STJ e Jurisprudência em Teses n. 59, Cadastro de Inadimplentes).
STF, Súmula 159 (sessão plenária de 13/12/1963), no portal de jurisprudência do STF. O art. 1.531 nela citado é do Código Civil de 1916 e corresponde ao art. 940 do Código de 2002.
Código de Defesa do Consumidor (Planalto): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078compilado.htm
Código Civil, arts. 205 e 940 (Planalto): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm
STJ — Informativo 803 (EAREsp 1.501.756/SC): https://www.stj.jus.br/docs_internet/informativos/PDF/Inf0803.pdf
STJ — notícia sobre a prescrição decenal (EAREsp 676.608/RS): https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/29102020-Acao-para-devolucao-de-cobranca-indevida-em-telefonia-prescreve-em-dez-anos--decide-Corte-Especial.aspx
STF — Súmula 159: https://jurisprudencia.stf.jus.br/pages/search/seq-sumula159/false
Leia também
Dá para processar uma empresa no Juizado Especial Cível em causas de até 40 salários mínimos, o que em 2026 dá R$ 64.840. Não se paga…
O prazo de entrega anunciado integra o contrato, pelo artigo 30 do Código de Defesa do Consumidor. Estourado o prazo, o artigo 35 dá três…
Propaganda enganosa é a publicidade falsa, inteira ou em parte, ou que omite um dado essencial, e o artigo 37 do Código de Defesa…
O estorno no cartão de crédito é a devolução pelo mesmo cartão, e a lei manda que seja imediata na desistência online e no defeito…
Garantia estendida é um seguro, regulado pela SUSEP, que só começa quando acaba a garantia do fabricante, e a loja não pode condicionar…
Quando o cartão é clonado, quem responde pelas compras é o banco, pela Súmula 479 do STJ, salvo se ele provar culpa exclusiva…

